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PARTE 1
Em San Lorenzo, uma vila poeirenta encravada no coração de Jalisco, México, o cheiro a agave assado que flutuava no ar misturava-se sempre com um silêncio submisso. Toda a gente que ali vivia sabia perfeitamente quem ditava as regras. Não era o presidente da câmara, nem a polícia. Era Don Alejandro Garza, um barão da tequila e dono de vastas plantações que se estendiam até onde a vista conseguia alcançar, possuindo também mais de 5000 cabeças de gado. Alejandro era um homem que já ultrapassara os 70 anos, de bigode espesso, que exibia sempre um olhar de predador. Para ele, o mundo estava dividido em duas categorias: os que rastejavam para servir e os que nasceram para mandar. Desafiá-lo significava perder o emprego e o direito de viver em paz na sua própria terra.

A rotina de medo mudou no dia em que Alejandro comprou um cavalo monumental por 200.000 pesos. O animal, que ele batizou de El Diablo, era um garanhão formidável com uma pelagem escura como a noite de Jalisco. Alejandro tencionava usá-lo para humilhar os criadores rivais nas tradicionais feiras de charros. No entanto, El Diablo possuía outros planos. Desde o momento em que pisou a fazenda, o cavalo revelou-se uma tempestade indomável de fúria. Em apenas 15 dias, partiu 3 costelas ao domador mais famoso da região e mandou outros 4 peões robustos diretamente para as urgências do hospital de Guadalajara. O garanhão não deixava que ninguém se aproximasse, atirando coices brutais contra as cercas do curral com uma raiva inesgotável.
Visceralmente furioso e incapaz de suportar a ideia de se ter tornado o motivo de chacota nas cantinas locais, Alejandro tomou uma atitude extrema. Ofereceu uma recompensa astronómica de 50.000 pesos, em notas vivas, a qualquer pessoa que conseguisse montar e domar El Diablo num evento público a realizar no sábado seguinte.
A notícia correu rápido e chegou a uma frágil cabana nos arredores, onde vivia Elena. Tratava-se de uma rapariga esguia, mas de espírito inquebrável, com 22 anos. Elena cuidava de Luna, uma égua de 28 anos, fraca, que qualquer outro teria mandado para o matadouro. Mas Elena possuía um dom silencioso para comunicar com os animais. Não usava esporas afiadas, usava apenas paciência. Vivia com o seu pai, Mateo, um homem amargurado de 60 anos cujo corpo estava prematuramente destroçado. Mateo trabalhara duramente para Alejandro há exatamente 10 anos. Num capricho cruel durante uma festa, Alejandro obrigara Mateo a montar um touro bravo. Mateo caiu brutalmente, fraturou a coluna vertebral e foi sumariamente despedido sem qualquer compensação. Agora, necessitava de uma cirurgia urgente na capital que custava exatamente 50.000 pesos.
Quando Elena ouviu o valor da recompensa, anunciou de forma incisiva: “Pai, eu vou domar o cavalo do Garza”.
O rosto de Mateo empalideceu. “Estás louca? Esse animal tem 500 quilos de ódio. E o Alejandro é um monstro! Ele já destruiu a minha vida, não permitirei que tire a tua”.
“Eu não vou usar a força física, pai. Vou apenas ouvi-lo,” respondeu Elena com firmeza inabalável.
Apesar das lágrimas e implorações do pai, Elena partiu no sábado de manhã, caminhando 8 longos quilómetros até à opulenta fazenda dos Garza. O recinto estava repleto de centenas de pessoas. Os melhores charros de Jalisco já estavam a tentar a sua sorte e a serem atirados violentamente ao chão. Ignorando os olhares curiosos, Elena aproximou-se da mesa de inscrições. Quando os homens viram que a filha do estropiado Mateo queria participar, as gargalhadas ecoaram com estrondo. Alejandro reconheceu-a de imediato e o seu rosto contraiu-se num sorriso de pura maldade. Ordenou aos seus capatazes que deixassem a rapariga de 22 anos entrar e que provocassem violentamente o cavalo antes de abrir a porta. “Vamos ver se a filha cai da mesma altura que o pai,” sussurrou Alejandro num tom sombrio. Lá dentro, ouvindo os estrondos provocados pelos homens, El Diablo enlouqueceu completamente.
Era impossível acreditar no que estava prestes a acontecer…
PARTE 2
A densa nuvem de poeira levantada pelo pânico extremo de El Diablo ainda pairava no ar quente de Jalisco quando a pesada porta do curral foi lentamente aberta. Elena entrou no recinto fechado com passos firmes. Subitamente, o silêncio caiu como uma pesada âncora sobre a multidão frenética de quase 800 pessoas. As gargalhadas arrogantes e os assobios morreram abruptamente na garganta dos charros. O animal estava coberto de suor e espuma, atirando coices tão potentes que faziam as grossas tábuas de carvalho tremer violentamente, ameaçando deitar toda a estrutura abaixo a qualquer instante.
Elena não levou cordas de sisal, não usou as tradicionais esporas de prata, nem sequer trazia sombrero. Tinha apenas as mãos vazias e um pequeno pedaço de piloncillo, um bloco de doce rústico de açúcar mascavado, guardado no bolso. Minutos antes, obedecendo às ordens sádicas de Alejandro, os capatazes da fazenda tinham utilizado impiedosamente varas de choque elétrico para enfurecer o cavalo negro até ao limite. Tratava-se de uma tática suja para garantir que a rapariga saísse dali diretamente para o hospital, servindo de lição a qualquer um que ousasse desafiar o orgulho dos Garza.
“Eu dou a essa miúda apenas 10 segundos antes de ser esmagada contra a cerca,” gritou um vaqueiro encostado à grade de madeira.
Mas Elena fez exatamente aquilo que ninguém habituado à força bruta esperava: ficou absolutamente imóvel. Baixou os olhos para o chão, relaxou os ombros e deixou os braços caírem ao longo do corpo. Não demonstrou o mais ínfimo sinal de agressividade ou de domínio. Para um cavalo traumatizado de 500 quilos, que passara as últimas 2 terríveis semanas a ser brutalizado, aquela postura inofensiva era um enigma absoluto, uma quebra total no padrão de abuso.
Passaram-se 2 longos minutos. O público começou a murmurar impaciente nas bancadas. Don Alejandro Garza, no seu palanque sombreado, franziu a testa. O cavalo, profundamente confuso com a falta de ataque daquela figura singular, parou subitamente de escoicear a madeira. A respiração ofegante de El Diablo ressoava solitária pelo curral silencioso. Sem qualquer pressa, Elena deu um passo extremamente lento na direção do animal. Depois, deu mais outro passo. Ela não olhava diretamente para os olhos do garanhão; observava cada contração nervosa dos músculos tensos do cavalo. A sua empatia nata dizia-lhe claramente que a fúria do animal não era maldade; era a manifestação desesperada de um trauma profundo imposto pelos homens.
Quando a distância se reduziu para 3 metros, a tensão tornou-se insuportável. El Diablo, num reflexo defensivo instintivo, fez uma investida falsa e agressiva, atirando a pesada cabeça para baixo e raspando o casco no chão, levantando uma espessa nuvem de poeira diretamente para o rosto sereno de Elena. Qualquer homem experiente de 100 quilos teria recuado aterrorizado. Elena, contudo, nem sequer piscou. Fechou os olhos suavemente por um breve momento, respirou fundo e manteve-se inabalável.

Lentamente, estendeu a mão aberta, revelando o pedaço de piloncillo. O cheiro adocicado viajou através das correntes de ar quente do recinto. El Diablo, exausto de lutar constantemente contra o mundo inteiro, hesitou na sua postura. As orelhas rodaram para a frente. Passo a passo cauteloso, o colossal garanhão negro aproximou-se. O silêncio na vasta fazenda era agora tão denso e palpável que se podia ouvir a brisa a rasgar as folhas dos agaves. O cavalo esticou o pescoço e tocou na palma da mão de Elena com o focinho aveludado, recolhendo avidamente o doce prémio.
Foi precisamente nesse momento que Elena notou um detalhe arrepiante que fez o seu sangue gelar. Escondido sob a crina espessa e camuflado pelas grossas correias do arreio que os homens de Alejandro tinham forçado, havia um freio de metal farpado e oxidado. Tratava-se de um instrumento de tortura concebido para rasgar o interior da boca do animal sempre que este fizesse o menor movimento brusco. Uma fina linha de sangue escuro escorria pelo queixo de El Diablo. O cavalo nunca tinha sido indomável; estava a ser brutalmente torturado de forma diária.
Uma raiva avassaladora e dolorosamente familiar invadiu o peito de Elena. Foi exatamente a mesma natureza de crueldade sádica e a mesma sede de entretenimento que destruíra irreversivelmente as costas do seu pai há 10 anos. Sem hesitar, movendo-se com uma suavidade hipnótica, Elena deslizou as mãos pelo pescoço musculado do garanhão, murmurando num tom ininterrupto palavras de conforto. Num movimento rápido, desapertou com destreza as grossas tiras de couro. Com um puxão firme, retirou o sanguinário freio de metal farpado da boca do cavalo, atirando-o com nojo para a terra húmida e ensanguentada do curral.
Assim que o metal tortuoso caiu, El Diablo soltou um suspiro longo, profundo e libertador, como se um demónio lhe tivesse saído das entranhas. O cavalo baixou a enorme cabeça e encostou-a confiantemente ao peito da jovem de 22 anos. A multidão prendeu a respiração em choque absoluto. Utilizando apenas um leve impulso e agarrando-se à espessa crina negra, Elena montou de um salto o dorso nu do poderoso animal. Não se ouviu qualquer protesto. Em vez disso, El Diablo começou a caminhar num passo extraordinariamente lento e indescritivelmente majestoso, respondendo à perfeição apenas à pressão leve da humilde rapariga.
Deram 1 volta completa e vitoriosa ao recinto. Depois, deram 2 voltas, sob o olhar estupefacto de Jalisco. Na terceira passagem, com uma postura ereta, Elena guiou o garanhão negro diretamente até ao faustoso camarote de Alejandro Garza. A jovem encontrava-se montada na fera antes temida, irradiando a autoridade de uma verdadeira rainha daquela terra, enquanto o magnata a fitava de queixo caído, vendo o seu império de orgulho desmoronar-se perante 800 testemunhas.
Contudo, Elena não se contentou em ficar pela vitória silenciosa. O seu pai merecia muito mais do que isso. Com uma voz potente, a jovem apontou com o dedo acusador para o pedaço de metal farpado manchado de sangue que jazia no chão.
“Este é o verdadeiro segredo do grande Don Alejandro!” gritou Elena. “Ele não possui a habilidade para domar os seus animais. Ele simplesmente tortura-os impiedosamente até os conduzir à loucura! Foi precisamente com esta mesma brutalidade doentia que ele destruiu a coluna e a vida do meu pai, Mateo, há 10 anos, meramente para seu desprezível entretenimento!”
Uma onda de choque coletivo percorreu as bancadas. O murmúrio atónito transformou-se numa explosão ensurdecedora de gritos de pura indignação. Várias mulheres começaram a vaiar ruidosamente o magnata; quase de imediato, os homens juntaram-se ao coro de repulsa. A imagem imponente e sagrada do intocável Alejandro Garza desfez-se em míseros segundos. Ele encontrava-se agora encurralado pelo peso da vergonha pública perante toda a elite rural e os seus próprios empregados subjugados.
Num ato de solidariedade, um dos charros mais respeitados da região desceu das bancadas, pegou no cruel freio farpado e atirou-o exatamente aos pés do camarote de Alejandro. “Paga os 50.000 pesos à rapariga agora mesmo, Garza,” exigiu o corpulento charro. “E aconselho-te a rezares fervorosamente para que as autoridades de Guadalajara não decidam investigar a fundo as tuas práticas criminosas.”
Totalmente encurralado, humilhado e sentindo o ódio cru da sua própria comunidade a sufocá-lo, o velho magnata entregou um espesso maço de notas que perfazia o valor de 50.000 pesos ao nervoso organizador do evento, que o passou para as mãos vitoriosas de Elena.
A jovem guardou o precioso dinheiro. Tinha finalmente a quantia necessária para garantir a operação vital de Mateo. No entanto, havia ainda um último detalhe a resolver.
“O cavalo não vai ficar nesta fazenda maldita,” declarou Elena com frieza, acariciando o pescoço de El Diablo. “Qualquer homem que precise de usar ativamente estas ferramentas de tortura para prevalecer perde o direito legítimo de se intitular dono. Eu levo o cavalo comigo agora mesmo.”
Sem qualquer resquício de coragem para a enfrentar, Alejandro Garza recuou cobardemente para as sombras do seu camarote luxuoso, completamente derrotado.
Quando Elena transpôs os enormes portões principais montada no outrora temido cavalo negro, a gigantesca multidão explodia num aplauso retumbante. Lá longe, recortado na curva da estrada de terra, Mateo esperava ansiosamente, agarrado com força a uma bengala. O pai tinha feito o sacrifício de caminhar atrás da filha, apenas para acabar por testemunhar o momento mais glorioso de San Lorenzo.
Elena correu a abraçar o pai. Com os 50.000 pesos, Mateo foi submetido à cirurgia que lhe devolveu a dignidade física. El Diablo viveu o resto dos seus dias nos campos abertos ao lado da mansa e velha égua Luna, livre do peso de uma espora. A verdadeira força na vida, concluiu toda a vila, nunca reside na capacidade bruta de subjugar. A maior força titânica que qualquer humano pode demonstrar reside na empatia, no respeito e na coragem colossal de olhar nos olhos da injustiça e enfrentá-la, mesmo quando o opressor se tenta erguer como um gigante intocável. Deixe o seu comentário se também acredita que a bondade e a coragem vencem sempre qualquer maldade.